☆LIBERDADE E LIBERTINAGEM – UMA ANÁLISE EDUCACIONAL☆

☆LIBERDADE E LIBERTINAGEM - UMA ANÁLISE EDUCACIONAL☆

Não há liberdade absoluta. A liberdade, para ser absoluta, tem que ser universal; não podemos defini-la de acordo com quaisquer circunstâncias particulares. “O homem está condenado a ser livre”, diz Sartre. De fato o homem é livre no seu querer e atuar, mas ele não é absolutamente livre, sem limites nem restrições. Cada um vive numa situação única e concreta da sua existência, traz consigo como herança determinadas aptidões espirituais e corporais. Desde a infância está interagindo com meio que o rodeia, pelas influências da educação, pelo ambiente espiritual, ético, religioso e ideológico em que cresce e se desenvolve; vive em determinadas circunstâncias nacionais, sociais, políticas e culturais que contribuem para sua formação. Em todos estes casos está restringida a nossa liberdade: com a limitação da nossa existência finita e singular, do nosso conhecimento finito e sempre incompleto, da nossa vontade finita e reduzida a um estreito campo de ação. Tudo isto se conjuga para que a liberdade do homem só possa ser uma liberdade condicionada e limitada.

Definir a liberdade como um princípio é um erro. Deve ser um fim. A liberdade como um princípio é um adorno retórico, que esconde a vigência de algum princípio totalmente diverso. Quando um educador em aula proclama que “a liberdade de um termina onde começa a do outro”, ele está reconhecendo sem perceber, que a liberdade é apenas relativa e limitada, deixada ao cidadão determinada por uma ordem jurídica estabelecida. O princípio aí fundante é, pois, o de “ordem”, não o de “liberdade”. Isso basta para demonstrar que a “liberdade” não é jamais um princípio, mas apenas a decorrência mais ou menos acidental da aplicação de um princípio totalmente diverso.
Quando você limita a liberdade de um para preservar a de outro, como acabei de demonstrar, o que aí está sendo aplicado não é o princípio da “liberdade”, mas o da “ordem” necessária à preservação de muitas liberdades relativas. A ordem e a consequente garantia dessas liberdades relativas deve ser o objetivo de qualquer sistema educacional.

Não há entre a liberdade e a ordem uma relação de oposição, como muitos educadores modernistas acreditam, mas uma relação de dependência da primeira com a segunda: a liberdade é um elemento da ordem, não havendo, portanto, escolha entre “mais liberdade” e “mais ordem”, mas sim apenas entre ordens que fomentam a liberdade e ordens que a estrangulam. No caso, devemos buscar as ordens na educação que fomentam a liberdade de nosso jovens.

Portanto, o discurso de liberdade como princípio sem limites dos educadores modernistas, por si só caracteriza um cárcere. Pois não há liberdades relativas sem ordem. A ordem é o fundamento das liberdades relativas, e assim, quando um educador modernista recusa a ordem, muitas vezes sem saber, esta condenando toda possibilidade de uma “vida livre” dos educandos. “O homem é escravo de tudo aquilo que o domina”, um educando sem ordem (emocional, intelectual, financeira, familiar, de conduta…) é imaturo, egoísta, instável; tem muita dificuldade de convivência social e familiar, dominado pelos prazeres mais banais e pelos vícios. Um verdadeiro escravo travestido de um ser moderno e livre, está acorrentado pelas vicissitudes da vida, mas crê que em sua liberdade e que sua realidade objetiva é fruto de uma “livre escolha”.
Em todo sistema político, e, portanto, deveria ser em toda escola, a liberdade é sempre e exclusivamente um espaço de manobra repartida entre os vários agentes dentro da ordem jurídica existente; que a ordem é a condição possibilitadora da liberdade, e não esta daquela, como se vê pelo simples fato de que pode existir uma ordem sem muita liberdade, mas nenhuma liberdade fora da ordem. A ordem pode inspirar-se no desejo de ampliar a margem de liberdade até o máximo possível, mas não há por que confundir entre o ideal inspirador de uma construção e os elementos substantivos que a compõem. Por definição, a ordem, qualquer ordem, da mais libertária à mais autoritária, não é um sistema de franquias e sim de obrigações, restrições e controles. Cada direito assegurado a um cidadão nada mais é do que uma obrigação imposta a outros. Uma ordem libertária, só pode ser concebida como um sistema complexo de controles idealmente recíprocos destinado a limitar a liberdade de todos de modo que a de um não se sobreponha à dos outros: a liberdade do agente individual é a margem que sobra no fim de todas as subtrações de parte a parte.

O perigo, e um tanto paradoxal, é o fato de que o mesmo processo necessário à preservação das liberdades pode se tornar opressivo quando os direitos proclamados são muitos e desproporcionais. Isso explica a nossa dificuldade como educador, pois é justamente o que faz o ECA com os nossos jovens e crianças, que para estes desfrutarem de uma liberdade, quase incomensurável, provocam uma brutal restrição da liberdade de todos os demais, no caso, de todos os adultos e idosos; inclusive e principalmente a liberdade dos educadores que convivem diariamente.
Reconheço que nenhuma ordem é perfeita nos seus próprios termos. A ordem pode ser totalitária, quando oprime todos os cidadãos e concede a uma elite política uma liberdade “ilimitada”, assim como uma ordem libertina, nefasta, como nossa democracia, que também erra, mas no sentido oposto. A segunda, na busca de uma liberdade “ilimitada” do cidadão, especialmente do menor, gerou o caos e quase a destruição mútua dos que desfrutam dessa “ilimitada” liberdade. Pois na ausência de uma ordem bem estabelecida, vem uma grave limitação da liberdade pelo medo e pelo caos.
Assim, a liberdade, a ordem e os limites não se opõem. Ao contrario, a ordem e os limites são um fundamento necessário para as liberdades relativas. A ordem não é perfeita, e ela mesmo pode ser o maior entrave para a liberdade. Há ordens que fomentam a liberdade e ordens que a estrangulam. A ordem totalitária estrangula porque oprime todos os cidadãos e detrimento da liberdade “ilimitada” da elite política. Mas a nossa ordem democrática sem limites bem definidos, libertina e nefasta também é um entrave à liberdade, porque nos torna escravos do caos, do medo e de outros males.
“Liberdade e libertinagem – uma análise educacional”

 

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